Figura de convite II, 1998

_Adriana Varejão E o gosto pelo eterno

Alheia a modismos, a artista plástica Adriana Varejão gosta da tradição, que cozinha na sua panela na hora de realizar seu trabalho ou se vestir.

Num ateliê grande e iluminado por luz natural, trabalha, todos os dias, numa jornada de no mínimo oito horas, Adriana Varejão. Nascida no Rio de Janeiro, onde vive até hoje, ela tirou uma reta ainda pequena em direção às artes e nunca se desviou. Mesmo vivendo numa casa onde, nos anos 1970, o must em termos de artes plásticas era comprar quadros na Feira Hippie de Ipanema, a menina sabia que queria ser pintora. O interesse surgiu, aparentemente, da paixão pela coleção de fascículos Gênios da Arte. Onde conheceu os trabalhos de Van Gogh, Dalí, Picasso, El Greco, Rembrandt, Renoir, Monet, Warhol, Gauguin, Cézanne…

Nos anos 1980, Adriana teve a sorte de ingressar, totalmente por acaso, no centro nervoso da arte contemporânea no Rio de Janeiro, o Parque Laje. Ali ensaiava-se a instauração de um novo tempo, de descompromisso com o rigor e celebração de espontaneidade, onde as individualidades iriam aflorar. Esse movimento ficou conhecido como “Geração 80”, que Adriana, saindo da adolescência, acompanhou de perto. A efervescência do momento surtiu efeitos na garota que, os 21 anos fez sua primeira exposição individual, e aos 24 anos, em 1986, ganhou seu primeiro Salão Nacional.

O interesse pelo Barroco, por temas da colonização do Brasil e por azulejaria vieram logo depois, e a acompanham até hoje. A eles se somou a representação da carne como elemento estético, a visceralidade e a investigação do corpo humano.

Hoje, com 45 anos, a artista tem trabalhos nas coleções da Tate Modern em Londres, Guggenheim em Nova Iorque, Hara Museum em Tóquio, no Museum of Contemporary Art de San Diego, no  Stedelijik Museum de Amsterdam, e nos Museus de Arte Moderna de São Paulo e do Rio de Janeiro. Sua obra foi reunida recentemente no livro “Entre carnes a mares”, da editora Cobogó, que partiu de uma palestra da artista no Guggenheim Museun.

Adriana Varejão gosta de se compreender como uma tradicionalista contemporânea. E embora não dê a mínima bola para a moda, e ache inclusive que ela está sendo superestimada na nossa cultura, tem posições muito claras sobre o que escolhe para cobrir sua pele.

Você gosta de moda?

Moda em termos de tendência eu não gosto nem um pouco. Não gosto da cena como um todo. Acho exagerada a atenção dada a isso, o espaço na mídia, acho exagerado tratar modelos como celebridades. Os cadernos de cultura falam de moda como se estivessem falando de cultura, acho que existe uma certa histeria.

 

Como faz suas escolhas para se vestir?

Tendo a gostar das coisas mais permanentes. Gosto da tradição, sem ser tradicionalista. Consigo discernir um trabalho quase de escultura, em termos de texturas, padrões e estampas, em determinados designers.

 

Que designers chamam a sua atenção?

Gosto muito da Rodarte, das irmãs americanas Kate e Laura Mulleavy e tenho simpatia pela Vivianne Westwood. Mas não entendo muito de moda, não sou uma especialista.

 

O que é importante na sua maneira de vestir?

A textura da roupa, o tecido. Gosto do trabalho de alfaiataria e de roupas bem largas. Vivo de Gilda Midani e Sonia Pinto.

Expor seu trabalho no mundo todo influenciou o seu modo de vestir? Você pensa o que vai vestir numa vernissage?

Claro que penso, eu sou mulher! No início existia um certo constrangimento, porque para mostrar que era um bom artista, que pensa e é inteligente, você não podia estar bem vestido. Em artes plásticas existia certa discrição na maneira de se vestir. Isso, misturado a uma postura carioca - no Rio de Janeiro existe uma informalidade na maneira de vestir, que qualquer sofisticação soa como peruagem. Então, antigamente eu pensava na roupa, porque tinha a preocupação de parecer que não estava pensando. O que é mais difícil do que assumir que está pensando na roupa. Agora assumo que estou numa celebração, e quero estar o mais transparente possível celebrando aquele momento. A abertura de uma exposição dá tanto trabalho, eu quero que seja especial. Não é uma relação com a moda, uma necessidade de ser fashion, e sim uma volta à tradição, que vem das nossas avós, de se vestir para momentos especiais.

 

Em que lugar do mundo a forma de vestir chamou a sua atenção?

No Japão. Lá eles vão a um extremo muito interessante de fantasia. Personagens desfilam pela rua. É uma ode à individualidade. Eu participei de uma exposição com o Naoki Takisawa, quando ele desenhava para o Issey Miyake, fui ao escritório dele e vi toda a pesquisa, que era incrível. Gosto também do Yohji Yamamoto e de Comme des Garçons. A moda japonesa é muito bacana.

 

Você tem alguma necessidade de afirmar brasilidade?

Sou brasileira, ouço música brasileira, nunca morei fora, naturalmente vou expressar a cultura e geografia da qual faço parte.

 

A arte contemporânea tende a performances, site specifics, que estão muito na moda. Como é insistir na pintura? Você se sente num foco de resistência?

Não considero a pintura um meio anacrônico. A maneira como lido com ela é diferente de um pintor tradicional. Trago elementos alienígenas: alumínio, poliuretano, materiais pouco tradicionais, que não pertencem à pintura. Não pinto como forma de resistência e sim porque é o meio que mais se adapta ao que quero dizer.

 

De onde vem seu encanto pelo Barroco?

Em 1986 fui a Belo Horizonte participar de um Salão Nacional, e peguei um ônibus para conhecer Ouro Preto. Não sou religiosa, meus pais também não, a gente não tinha o hábito de visitar museus e igrejas. Quando vi as igrejas barrocas de Ouro Preto, não pude acreditar! Aquela exacerbação da volúpia da matéria me deu uma rasteira que nunca mais esqueci. Foi uma epifânia que vivi aos 22 anos. A partir daí fui tomada por esse universo.

 

Sua primeira exposição individual foi aos 21 anos, e três anos depois ganhou seu primeiro Salão Nacional. Você veio pronta?

Todo mundo vem mais ou menos pronto. Depois vai sendo estragado, soterrado e vai sofrendo um processo de embotamento.(risos)

 

Seu trabalho mudou muito com o tempo?

Sim, mas ele segue um fio coerente. Sou uma pessoa que aceita bem mudanças no trabalho. Sou barroca, e, como um ser barroco, incorporo tudo, constantemente.

 

Como surgiram os azulejos na sua obra?

Gosto de simular, na pintura, a azulejaria. Nos anos 1980 ele era citado dentro no universo Barroco. Depois serviu como suporte de ficção histórica, onde eu parodiava os painéis de azulejo e mudava a história que estava sendo contada. Mais tarde comecei a usar a azulejaria como geometria. O Barroco tem a azulejaria muito presente. Nele, o azulejo é a pele do edifício. Sempre gostei de pintar a carne, sempre frequentei mercados de carne, que são ambientes azulejados. Me identifico muito com a arquitetura carioca de botequins, e eles são azulejados. O azulejo não está só presente na minha obra, ele está presente na vida do Rio de Janeiro. É uma herança portuguesa.

 

E as carnes?

As carnes vêm de muitos séculos de pintura. Faço parte de uma tribo de pintores que pintam carne: Goya, Rembrandt, Francis Bacon... Quando pinto carne, falo também da tradição da pintura. Ela nasceu na minha pintura de uma investigação interna do próprio trabalho. O que busco é uma certa impureza. Existe uma tendência no mundo, na arte e na cultura à assepsia. Tenho pavor de assepsia. Gosto de fantasmas, paredes habitadas, sótão, porão... A gente está muito distante da matéria. Antigamente as pessoas levavam a galinha viva para casa, matavam, depenavam e tiravam o sangue para cozinhar. Hoje a galinha está plastificada, dentro de uma geladeira de supermercado. Existe uma vontade de limpeza e assepsia muito grandes, que distancia a gente da ideia da vida, do corpo, do nascimento, da morte. Busco as saunas porque elas são cheias de impurezas: cabelos, fluídos, restos de pele... Tento simular uma parede toda azulejada, e essa parede é cortada – existe uma pulsão dentro dela, que é a carne. A parede é habitada, viva. O rasgo ali é para mostrar que a casa, a parede são extensões do nosso corpo. A gente tende a entrar numa casa e pintar, apagar os vestígios de tudo o que passou por ali. Tenho uma tendência a resgatar isso. A carne não é uma exaltação da idéia da morte, é exaltação de uma pulsão de vida.

 

É por causa dessa pulsão da carne que fala-se da violência na sua obra?

Penso muito na obra do Sade, porque não estou operando sobre um corpo. Faço uma operação sobre a linguagem, como Sade fazia. Ele arranhava, decepava, cortava a linguagem. Aquilo só pode acontecer na literatura. Certas operações você só pode fazer no campo da ficção. É pra isso que ela serve, para você operar num campo de liberdade total.

 

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